Empresas na UTI

Se o homem passa mais de 70.000 horas de sua vida trabalhando, no mínimo ele precisaria estar vivendo em um ambiente harmônico, não acham? Mas não é isso que acontece: uma pesquisa do autor do livro *Dying for a Paycheck, Jeffery Pfeffer, constatou que 61% dos empregados disseram ter ficado doentes por estresse no ambiente de trabalho. Essa mesma pesquisa aponta que essas doenças podem causar 120.000 mortes a cada ano.

Isso significa que as pessoas estão morrendo por um salário. Assustador, não?

E sabe o que a maiorias das organizações estão fazendo para combater tudo isso? Nada, a não ser trocar as pessoas. Você acha que isso realmente é a solução?

“Para as pessoas que trabalham na base das pirâmides, as pesquisas consistentemente relatam que o trabalho é muitas vezes pesado e pavoroso, sem paixão e propósito”, afirmou Frederic Laloux.

Eu vou um pouco mais longe, a vida da alta hierarquia também não é muito gratificante. Atrás da fachada, vive-se um sofrimento silencioso. Liderança e solidão andam juntos. Tanto no topo quanto embaixo, as organizações são o campo para a busca insatisfatória dos nossos egos.

Para as organizações falta o entendimento de que existem coisas que a tecnologia não vai resolver. O ser humano precisa de atenção, bem como precisa trabalhar com atenção. É com a atenção que produzimos melhor. Mas essa atenção está distante. Não está sendo possível focar nas atividades com tantas distrações. Melhor dizendo, com tantas patologias. As organizações estão na UTI e para saírem de lá é necessário o engajamento. É preciso escutar a todos, mas essa escuta plena exige uma calma interna, porque todos nós estamos com pressa.

E agora? Será possível criar organizações livres das patologias que aparecem com frequência nos ambientes de trabalho? Livres de politicagem, burocracia e rivalidade? Livres de estresse e exaustão? Livres de exibições do topo e do trabalho penoso na base?  

Será que é possível uma reinvenção das organizações, para um modelo que torne o trabalho mais produtivo, gratificante e cheio de significado? Com propósito. O ideal seriam ambientes de trabalho significativos onde os nossos talentos possam florescer e nossas vocações serem honradas. Não acham?

Se você é o fundador ou o líder de uma organização e deseja reinventá-la criando um ambiente de trabalho diferente, tudo vai depender da sua resposta para todas essas questões. E tenha em mente que muitas pessoas vão descartar todas as suas ideias como um pensamento idealista e vão tentar convencê-lo a sequer tentar as mudanças. Sabe o que vão dizer? “Pessoas são pessoas”. “Temos egos, fazemos jogo político, gostamos de apontar culpados, criticar e espalhar rumores. Isso nunca vai mudar.” Nossa! Quem seria capaz de argumentar contra isso? Percebem o quanto estamos engessados? Não é mesmo a UTI?

Mas agora pensem o outro lado, nas experiências em momentos de pico de trabalho em equipe e nas conquistas que vieram até de forma quase sem esforço. A criatividade humana não tem limites e as inovações aparecem às vezes de repente. Então quem apostaria que não temos a capacidade de reinventar ambientes de trabalho muito mais motivadores? Quais dessas vozes você daria ouvido?

Será que é possível criar um caminho para além da terra da gestão “sempre foi assim”, em direção a um mundo novo junto ao novo estágio da consciência humana? Ou você prefere navegar para longe da borda, por não existir nada além do mundo que conhecemos?

Respostas prontas? Não temos. Mas podemos começar refletindo o curso da história humana. Por muitas vezes a humanidade reinventou a forma como as pessoas deveriam se reunir para trabalhar – sempre recriando um modelo organizacional superior. Se olharmos assim, podemos ter um modelo de organização novo muito próximo, logo ali na esquina, esperando para emergir.

Como especialista em gestão de processos eu recomendaria mapear todas as ideias existentes na empresa, começando pela base da pirâmide, pela operação. Que tal fazer um brainstorming com os colaboradores da operação? Vamos ouvi-los? Todos merecem ser ouvidos. É quem está diretamente no chão de fábrica que conhece a verdadeira logística operacional. Ou vocês acham que o líder sabe de tudo que acontece lá embaixo? Lembram daquele quadro do programa fantástico, onde uma liderança disfarçada se passava por um operador de chão de fábrica? É isso. Para conhecer, é preciso vivenciar.

Usem alguns métodos para esse brainstorming, como post its, sem medo de ser feliz. Essas ferramentas, para muitos pré-históricas, trazem engajamento. As pessoas se sentem envolvidas no processo. E são ferramentas que proporcionam o contato entre as pessoas, diferente de muitas das tecnológicas, que são eficientes, concordo. Mas distanciam ainda mais as pessoas.

Mapear os processos e ouvir os colaboradores é um passo. Mas juntamente a esses dois passos é preciso trazer todos para o engajamento e participação. E como fazer isso? Convido vocês a conhecerem um pouco mais sobre espiritualidade nas empresas através de outro texto que eu escrevi em parceria com o meu marido, Denis Zanini, (http://bit.ly/espiritualidadenasempresas). E já adianto aqui que não se trata de religião, tão pouco de espíritos do além.

E algo que eu acredito ser de grande importância neste processo de reinvenção, é a manutenção e continuidade de tudo que for implantado para que o engajamento permaneça e as melhorias sejam contínuas. O alinhamento e a responsabilidade precisam continuar, bem como o diálogo e questionamentos. Perguntar e ouvir sempre.

Última dica, conhecem a ferramenta 5W2H? Ela vai te ajudar neste processo de reinvenção:

What (o que será feito?) – Why (por que será feito?) – Where (onde será feito?) – When (quando?) – Who (por quem será feito?) 2H: How (como será feito?) – How much (quanto vai custar?)

Priscylla Spencer

Engenheira de Produção / Especialista em Gestão de Processos

 

*PFEFFER, JEFFREY; Dying for a Paycheck: How Modern Management Harms Employee Health and Company Performance - and What We Can Do Abou it – Kindel Edition – Publicado em 20 de Março de 2018

 

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